Dois lados do Atlântico, múltiplas negritudes e a triste (e vergonhosa) surpresa dos senegaleses

continenete-africanoHá ainda muita gente no Brasil que trata a África como um país. O que explica, por exemplo, que as pessoas, sabendo que estou no Senegal, me façam perguntas que remetam a alguma imagem um tanto homogênea de uma “mãe África”, ou mesmo de conclusões precipitadas, sobre nossas concepções das dinâmicas culturais dos povos que vivem no “velho continente”. Bem, devo confessar que também não escapei a isso, ainda que já há algum tempo tomasse cuidados em não generalizar tanto. Não adianta também uma crítica mordaz quanto a isso, tendo em vista que revela bastante sobre nossa educação formal e informal, que pouco nos explica sobre a história africana e suas influências no Brasil. Em geral tudo que sabemos remete a escravidão ou parte dos filmes hollywoodianos, que quando não resumem todo um continente às savanas, leões e outros animais não-humanos, mostram apenas exploração e miséria…

De todo modo vemos o problema das histórias únicas, como muito bem apontou a autora Chimamanda Adichie. Tudo se resume a uma versão única, imposta em geral por quem tem pouco interesse nas outras, as quais podem revelar fatores positivos sobre quem se conta a história, e, por vezes, outros nem tão positivos assim sobre quem conta. Isso, entre nós, nascidos no Brasil, só reforça o porquê de tanta luta para que a história de África seja contada de forma mais abrangente. Lembro-me de como fiquei surpreso ao descobrir que o Egito, aquela grande civilização que estudávamos tanto no colégio, era africana!

Sim, reduzir a história, seja de um povo ou uma pessoa, a uma única faceta é ser conivente com uma gama de preconceitos! Gosto de usar como exemplo a seguinte face-negra-do-brasilanalogia: você ouve falar muito sobre alguém, mas tão bem que fica com vontade conhecer aquela pessoa. Quando finalmente você realiza o seu desejo tem o azar de encontrar aquela pessoa de mau humor, sem paciência e, como se pode imaginar, sem querer conversar muito. Você volta decepcionado e conta pra geral o quanto aquela pessoa é um porre, mal educada e antipática. Talvez não seja o melhor dos exemplos, mas a ideia é mais ou menos essa…

Bem, ter uma visão homogênea de um lugar não é privilégio apenas de nós brasileiros, provavelmente todos os povos partilham disso em relação a outros. Estando no Senegal você finda por descobrir que, salvo algumas pessoas, o pouco que se sabe sobre o Brasil e os brasileiros se resumo ao samba, o futebol (o que hoje inclui o 7X1) e, lamentavelmente esperado, um discurso objetificador das mulheres, o que é alimentado por uma masculinidade, que seja no Brasil, ou aqui,  pouco, ou nada se problematiza!! Há ainda aqueles que acreditam que o Brasil é o país das oportunidades, talvez motivados pelas centenas de senegaleses que migraram nos últimos anos, e que, ao contrário do que podiam esperar, não tem uma vida mais tranquila!

Em meio a esse olhar homogeneizado que os senegaleses – e alguns outros africanos com os quais tenho feito amizade – há uma questão que a maioria parece saber: o Brasil é um país enorme e a maior parte da sua população é de negros e mestiços, isto é, não brancos, e, portanto, carregam alguma herança de África. Bem até ai  não há nada de errado. O problema está quando exatamente por isso se imagina que entre os brasileiros não haja muito racismo. Admito que bate aquela tristeza quando tenho que explicar, e dar exemplos, de como o racismo é forte entre nós, a ponto de afetar toda coletiva e subjetivamente toda uma população de negras e negros.

Dia desses fui fazer algumas compras num supermercado e eu e a moça que pesava os frios começamos a conversar. Ela me perguntou de onde eu era, quando eu disse, ela fez alguns comentários sobre o Brasil, e logo me lançou a pergunta: “Lá não tem muito racismo, né?”. Mais uma vez lá fui eu explicar para ela como é pesado o racismo no Brasil, e que mesmo eu, sendo mestiço/métisse – porque não estado-e-os-negrossou negro/noir no Senegal – sofria com o racismo. Ela cada vez mais surpresa, perguntou: “Mas vocês, negros e mestiços, não são a maioria por lá?” Respondi que sim, e lhe expliquei o quanto quase quatro séculos de escravidão se fazem presentes ainda hoje, seja na exclusão social e econômica, ou pelo estigma de serem supostamente inferiores. Dei a ela alguns exemplos, como a relação da polícia com negros e negras; ou a falta de oportunidades, que se evidenciavam no fato de que em toda a minha vida eu tenha tido apenas uma professora negra, e isso já quando cursava a graduação.

Algo semelhante aconteceu quando recentemente precisei ser atendido por uma equipe médica, e, um tanto emocionado, falei a médica que era a primeira vez na minha vida que era atendido por uma profissional da medicina que fosse negra. negrosnasaudeMais uma vez a pergunta: “Mas vocês (negros e mestiços) não são a maioria por lá? ” Percebi o quanto senegaleses sabem muito pouco sobre o Brasil, e que por isso tiraram conclusões que lhe soavam lógicas, e que me soam assim também. Essa mesma lógica me fez ouvir de alguns amigos se eu esperava algo diferente que ser atendido por médicos, advogados, ou mesmo ver que todos os quatro presidentes do Senegal também o eram.  A resposta é não! Estando aqui não há surpresas quanto a isso. Sinto-me emocionado e revoltado em certos momentos porque eu precisei atravessar o atlântico para ser atendido por uma médica negra; para ver excelentes escolas cheias de pretinhas e pretinhos, em geral tendo aulas com professoras e professores bem pretos também!

Nos momentos em que houve tempo, e interesse para se compreender melhor o porquê de tanto racismo no Brasil, me esforcei para explicar que o fator econômico era importante, tendo em vista o que foi feito para com a população negra do pele-negra-mascara-brancaBrasil após a sua suposta libertação da escravidão, mas também que isso tinha outros efeitos, que remetiam a um tipo de isolamento simbólico, isto é, algo que havia se entranhado na sociedade brasileira, e que entre nós, negras e negros, se convertido inclusive numa falta de confiança em nós próprios, fruto de um sentimento de inferioridade, tendo em vista que todos os cargos, profissões, referenciais de beleza, enfim, tudo aquilo que remete a boas coisas, em geral, eram ocupadas por pessoas brancas, isto é, diferentes de nós.

Certa vez falando sobre isso pedi que determinado amigo senegalês, defensor da meritocracia, como seria difícil acreditar que ele poderia fazer seu segundo mestrado, e sonhar com o doutorado, e ainda mais em ser professor de uma milton-santosuniversidade pública – como era o caso dele – se nunca tivesse tido um professor sequer que se parecesse com ele. Ele concordou. Disse que apesar de acreditar que o esforço é indispensável, que não ter uma inspiração, torna tudo mais difícil. Por isso falamos, repetimos e insistimos: REPRESENTATIVIDADE IMPORTA, SIM!!!!

Alguns podem ler esse texto e dizer: “Ah, mas eu conheço médicos negros, você está exagerando  e sendo muito radical!”. Primeiro, na minha concepção de radicalismo, não tenho problemas em ser, já que “ser radical” é buscar se aprofundar, “ir na raiz do problema”, como dizemos  em terras brasilis. Segundo, que lembre, conheço um médico negro brasileiro, o qual fez toda sua formação em Cuba, tendo em vista que, sendo pobre, não poderia fazer o curso no Brasil, mesmo em uma universidade pública! Hoje ele é um excelente médico, mas preciso me esforçar para lembrar de outros.

Sobre professoras e professores não preciso de esforços, tive uma única, Irene Paiva, uma mulher forte que, por sinal me deu muita força para fazer o mestrado. Não me orgulha que posso ser apontado por vários alunos e alunas minhas como seu único professor negro. Muito pelo contrário, essa falta de lógica que tanto surpreende senegaleses me envergonha, me entristece, mas também me motiva não a um discurso meritocrático, que faça de mim exemplo para qualquer coisa, mas sim que queira voltar o mais rápido possível para sala de aula – habitat quase que natural – e contribua para o tipo de questionamento que veja a falta de lógica que é viver numa sociedade de maioria negra e mestiça e ser apontado como uma exceção, ou pior, como “um preto de sorte”!

Sorte de quê? De ter tido uma trajetória distante de outros negros, porque passei a maior parte da minha vida em espaços de classe média BRANCA – escolas, igrejas, universidades, etc – e com isso demorei bastante a perceber que as dores que me afetavam não eram apenas minhas? A sorte de que com esse “privilégio” não tive vontade de trabalhar para o tráfico, e que com isso posso estar vivo  perto de completar  meus 34 anos, ao invés de ter morrido aos 14? Ser exceção não é sorte, é mais uma fatalidade, que não me matou, mas me faz olhar ao redor e, por vezes, ter medo de fracassar a cada momento, ou, de me pressionar para que isso não aconteça, e, com isso, me esforçar três vezes mais que outros, porque luto contra algo que foi enterrado na minha alma, como ervas daninhas com raízes profundas – que vão sendo arrancadas a cada dia. Luta que também se dá  há todo tempo do “lado de fora”, seja ao lidar com olhares, questionamentos de pessoas, grupos, e do próprio Estado – esse que quando não nos mata com “tiro, porrada e bomba”, o faz  vagarosamente, apenas oferecendo formalmente direitos e oportunidades iguais!

Em tempo: a vergonha – mencionada no título desse texto – não é minha, e não deve ser qualquer negra e negro brasileiro, tendo em vista que ela não é nossa culpa! A vergonha devem ter aqueles que carregam em seus corpos, oportunidades, e na cor branca de sua pele (por que não?) os privilégios de uma “nação” que ainda estigmatiza, invisibiliza e escraviza negras e negros, fazendo de nossa carne ainda “a mais barata do mercado!  Tudo isso soa como uma espécie de deboche, uma tentativa de deslegitimar e nos enfraquecer. Talvez em outro momento eu possa escrever sobre os sentimentos de inferioridade que assolam os senegaleses em relação aos brancos; como ele se torna explicito, assim como sobre como isso tem também a ver com a colonização. Certamente que quanto a isso há também semelhanças e diferenças com o Brasil.

Por ora tem algo que quero dizer: Sim, ainda somos muitos poucos, negras e negros, mestiças e mestiços, a ocupar determinados espaços, tidos como de mais valor no Brasil, mas estamos entrando, incomodando, afrontando, e com isso, como gostamos de dizer no Afronte, fazendo de qualquer lugar que estejamos nosso quilombo, colorindo diversamente o mundo com nossa negritude forjada debaixo de muita luta e sofrimento, mas também debaixo de muito axé, tambores e danças! Ah, e quanto mais isso acontecer, e por mais distante que possamos estar, serão também as estruturas de um sistema capitalista que justifica a existência de classes – que ainda são quase castas – que estarão sendo balançadas!

 

Anúncios

Alumiar a escuridão com nossa negritude diversa…

Alumiar a escuridão com nossa negritude diversa…

   

Em um tempo obscuro, onde figuras como Temer, Trump e Le Pen ascendem ao poder, precisamos respirar fundo, unirmos forças em meio as nossas diferenças e lutar! O mundo não está do avesso, ele está a imagem e semelhança explícita do que vem sendo há muitos séculos! E nesse cenário continuamos, negras e negros ao redor do mundo, a sofrer um holocausto diário, silenciado por aqueles que desde muito tempo não tem interesse que saiamos de nossas senzalas parar fazermos do mundo nosso quilombo! Salve Dandara e Zumbi! Salve Clementina e Bezerra da Silva! Nós os vivos deste mundo saudamos todos os que antes de nós vieram, e em nós habitam!reproducao_destaque_dandara

Certa vez ouvi do meu então terapeuta a seguinte frase: “Ah, porque você sabe que a pele das pessoas negras tem um cheiro mais forte, né?”. Na hora não soube o que dizer, e, para ser sincero, não tinha compreendido como o ato racista que, de fato, foi! Por que? Era apenas uma variação velada, banhada de palavras aparentemente menos agressivas, da frase: “Vixi, tá fedendo a nego!”, também bastante difundida Brasil no. zumbiTão presente em nosso cotidiano quanto ela estão outras, não menos violentas, como: “Nego, quando não caga na entrada, caga na saída!”; “Todo preto é preguiçoso!” – Não à toa são os baianos que têm de lidar com o título de “gente preguiçosa” – alimentando a antiga ideia de que a população negra é mais tendenciosa a vagabundagem.

Bem, nenhuma brasileira, ou brasileiro, precisa atravessar o Atlântico para discordar dessas questões, mas estando do lado de cá, conhecendo um pouco dos povos e costumes da gente senegalesa, a crítica a tudo isso só se reforça. Nem me refiro aqui a história antiga das grandes civilizações africanas, e de como elas influenciaram todo o mundo dito moderno. Sobre isto só gostaria de ressaltar o quanto acho curioso que a dita arqueologia essa ciência/invenção ocidental, reconheça que a humanidade, como a conhecemos começou na África, e que, com isso, muitos dos nossos aprendizados tenham advindos daqui também. No entanto, o tal “novo mundo” parece ter  escolhido dar as costas para o “velho continente”, a não ser para lhe explorar, seja as riquezas das terras ou os corpos e almas de

diaspora
Diáspora Africana

sua gente!

Essa negação da importância, da capacidade criadora, tal como da força do povo negro, aparece também no Senegal na forma de posturas que parecem ver nessa gente um aglomerado de vagabundos, ou no máximo de gente destinada a servir aos brancos; ao Ocidente; aos “civilizados”, os “tubabs”. Já ouvi por aqui que os senegaleses não trabalham, mas passam o dia a tomar café touba – um tipo de café local com limão! Não sei por quais ruas as pessoas que afirmam isso andam, ou em quais dias estão a circular por ai, ou muito menos por quais bairros! Sei apenas que em um mês e oito dias  andando por algumas cidades circunvizinhas da região de Dakar, não poderia achar algo mais falacioso!

Mesmo nos domingos, vejo as ruas repletas de gente trabalhando! Homens, mulheres, 14677285_178802929244458_3075013867437293568_n1velhos e crianças, estão por todos os lados a ocupar as , sejam nos diversos tipos de transportes coletivos que há por essas bandas; vendendo todo tipo de coisas; etc. Sim, há muita gente desempregada! Sim, há muita gente pelas ruas a pedir dinheiro! Há crianças cheirando cola! Há roubos, corrupção endêmica por todos os lados! Ah, e por aqui há uma minoria branca  e estrangeira, em boa medida, que controla diversas coisas no país! Familiar, não?

Não se trata aqui de criar um discurso binário entre mocinhos e bandidos, onde o Ocidente seja visto como o único responsável pelas mazelas socioeconômicas, políticas, históricas e culturais dos países africanos. Certamente antes da entrada dos europeus, já havia desigualdades, guerras, e diferentes mercado-de-peixesformas de opressões. No entanto, se por um lado não se deseja romantizar a história dos africanos, muito menos pretendo cair em sua culpabilização, especialmente pela extrema desigualdade reinante entre os povos negros, seja em África, ou espalhados pelo mundo…

Arrancaram-nos de nossas terras; do meio do nosso povo, nossos afetos, nossos ancestrais! Disseram: Vocês não são humanos, são bestas, no máximo máquinas que usaremos até o esgotamento!

Jogados em Negreiros, amontoados como montes de bichos, separados por usos, gêneros e características físicas! Nos trataram como mão-de-obra, mercadoria! Jogados em fétidas senzalas, apenas com as roupas do trabalho, as mesmas com as quais dormíamos… Nos

Navio_negreiro_-_Rugendas_1830.jpg
Negreiro

chamaram de sujos!Estupraram nossos corpos, almas e com isso tentaram acabar com nossa dignidade… Disseram-nos: “”Vocês não tem alma!”. Quando criamos nossos quilombos com a dignidade de um povo que nunca se quebrou totalmente, fomos acusados de rebeldia! Rebeldes, sim! Radicais também!

Em um tal 13 de maio, que nunca será dia das pretas e pretos, disseram-nos mentirosamente: “Vocês estão livres! Somos todos iguais! Esforcem-se e alcançarão o sucesso.” Nem livres, muito menos iguais! Não nos ofereceram empregos, preferiram outros brancos! “Narciso acha feio o que não é espelho”! Já não servíamos mais ao trabalho! Chamaram-nos de preguiçosos, vagabundos, indolentes! senzala

No Brasil somos tantas e tantos, negras e negras, das mais variadas cores de pele, mas para, mais uma vez tentar nos arrancar a própria existência, nossa identificação com nossos irmãos em África, e de toda a Diáspora. Gritaram em nossos ouvidos: PARDOS!

Sabem de uma coisa? Não conseguiram acabar conosco! Re-existimos, seja nas ruas do Senegal, de Cabo Verde, de Guiné-Bissau, Angola, Estados Unidos, França ou Brasil. O caminho ainda é longoluther-e-malcon, e ele passa por relembrarmos dos nossos antepassados, sua força, suas lutas! Sim, eles foram arrancados de suas terras, mas suas raízes penetram profundamente em nossos corpos e almas! Precisamos re-aprender!

Não há receitas prontas, mas numa coisa aposto: não será com as armas dos nossos opositores que conquistaremos nossos espaços! Resistiremos nas salas de aula e nas ruas! Resistiremos em todos os espaços em que a planta dos nossos pés pisar! Resistiremos onde quer que existamos!

Onde houver amor, haverá resistência, onde houver resistência ali estaremos!!!

resistencia

Sobre belezas e tragédias: um relato sobre a visita a Îlé de Gorée

Sobre belezas e tragédias: um relato sobre a visita a Îlé de Gorée

img_20161014_094032

A primeira vez que meus olhos contemplaram a Îlé de Gorée foi ainda em Dakar, quando conheci uma pequena praia chamada Plage du Ponton, próximo do centro da capital. De lá não pude sentir nada que anunciasse a mistura de sentimentos que minha primeira visita a Gorée causaria. Dias depois, junto com um amigo brasileiro,  residente há mais de dois em Dakar, fomos até lá. Como qualquer turista, paguei o valor para não residentes no Senegal, entrei num grande barco de transporte de pessoas, e em menos de meia hora estávamos atracando. Dentrgoreee os passageiros havia muitas pessoas as quais identifiquei como negras, muitas não senegalesas, tendo em vista que era uma quinta-feira, e os nativos vão a Gorée muito mais aos fins de semana, quando a ilha fica abarrotada de gente. Havia brancos, provavelmente estrangeiros, em geral franceses…. Os brasileiros ainda não costumam viajar tanto ao Senegal, de forma que é bem provável que nós dois fossemos os únicos naquela viagem, e eu o negro (dentro da perspectiva brasileira).

 

Antes de continuar com meu relato, devo alertar que meu intento aqui é, de antemão, um fracasso e fico satisfeito que assim o seja. Não conseguirei compartilhar plenamente do que senti em minha primeira visita a este lugar, não há condições, em especial do que senti ao conhecer a Maison des Esclaves – Casa dos escravos. Uma construção que fica a beira mar que não podia ter um nome mais inapropriado, tendo em vista que certamente não era um lar, muito menos um lar para tantas mulheres, homens, crianças pequenas e maiores! Era um depósito de gente! Apenas a parte superior da construção poderia, talvez, ser considerado uma casa, onde ficavam os europeus. Os diferentes africanos que dali partiam ficavam acumulados aos montes em quartos onde eram separados por gênero, idade, beleza, e serventia para os diferentes interesses mercadológicos de seus futuros “donos” ocidentais. Os mais rebeldes eram obrigados a ficar num reduto ainda menor, uma espécie de solitária, um lugar que conseguia ser ainda mais assustador do que todo o resto.

Não sei das suas crenças, mas acredito que os lugares findam por manter certas formas de energias residuais, o que, a meu ver, independe do que pensemos  a respeito de entidades espirituais, fantasmas ou coisas do tipo. De forma que uma construção onde as pessoas que por ali passaram tenham sofrido muito, também carregará por muito tempo, talvez para sempre o peso daquele sofrimento. Como em muitos lugares, a “Casa dos Escravos” foi transformada em ponto turístico, um dos principais da ilha. E como não poderia deixar de ser, é necessário pagar, não muito – o equivalente a menos de R$ 3,00. De modo geral, as pessoas fazem um percurso lá dentro no qual, primeiramente, ouvem algumas informações do guia, o que não achei necessário. Em parte, por nunca gostar de estar em multidão; por ser desconfiado dos relatos dos guias turísticos; por estar acompanhado de meu amigo, e por fim, porque, desde a minha entrada ali, sentia que era mais importante sentir do que ouvir sobre aquele lugar. Eu já sabia o principal: dali muitas africanas e africanos haviam sido despachados em pequenos botes que os jogavam nos terríveis Navios Negreiros. Uma viagem sem volta para a maioria deles, que para alguns terminaria ainda no oceano, já que não foram poucos que morreram doentes, vítimas tanto de doenças físicas, como de espirituais…

porta-sem-retornoHá um corredor ali, um corredor tenebroso, um corredor final, um corredor de morte existencial para muitos… Não vivi aquilo, felizmente! Não posso sentir o que sentiram aquelas pessoas, mas sei de uma coisa: duvido que, por mais empáticos que aqueles europeus possam ser, eles sejam capazes de sentir o que alguém que tem mínima consciência do que seus antepassados sofreram com o processo de escravidão intercontinental. Esta última afirmação tem dois propósitos: não negar que havia entre os povos africanos – não diferente de outros povos – o costume de escravizar seus inimigos. No entanto, ao contrário do que percebo em algumas falas e textos, isto não trás qualquer tipo de leveza para no que aconteceu após o encontro entre povos europeus e africanos. Não romantizar a história africana, buscando enxergar com base em seu contexto histórico, sociopolítico e cultural, não deve servir de desculpas para o genocídio – em geral nunca assim chamado – a que foram submetidos esses povos quando se encontraram com a dita civilização!

Entrei pelo referido corredor que desembocava na porta que ficou conhecida como a “La porte sans retour” – “A porta sem volta” e uma sensação indescritível tomou conta de mim! Chorei. As lágrimas surgiram aos montes, como agora, ao me reportar aquele momento. Encostei-me naquelas paredes geladas – o efeito da umidade e do vento que ali se encontram -( com o propósito de não cair devido à fraqueza física e energética que me abateu ao chegar na saída, de onde via o oceano. Respirei fundo, pensei na degradação a qual cada pessoa ali foi submetida; nos casais sendo abruptamente separados uns dos outros; nas mães e pais, naquela suposta casa, tendo seus filhos e filhas arrancados de seus braços. Pensei ainda mais naqueles que iam sendo mandados para servir forçosamente a outros povos, longe de sua terra, suas famílias, seu continente… Por fim, pensei em meus antepassados, talvez o bisavô do meu bisavô paterno…. Esses que chegariam lá sem um sobrenome, e que tempos depois ganhariam um, no nosso caso, Rodrigues. Um nome marcado pela história da escravidão, um nome dos “senhores”… Respirei fundo, tornei a chorar, mas consegui me manter firme sob as pernas.

Enquanto saía outros estrangeiros iam até lá, tiravam suas fotos e partiam. Dirigi-me a parte superior, um ambiente que contrastava com o anterior. Apesar de fazer parte da mesma construção, tratavam-se de mundos diferentes. Lá em cima a luz entrava amplamente pela construção, enquanto embaixo o que predominava era escuridão. A principal entrada de luz era aquela que conduzia ao desterro, era a única luz no fim daquele túnel. Nem toda luz alumia! Essa, por exemplo, tinha tons de morte. Pior, tons de maison-des-esclavesescravidão! A morte, por vezes, acredito, pode ser muito mais libertadora que certas maneiras de se viver neste mundo. Para alguns será o fim de tudo, um alívio; para  outros, um descanso; enquanto para tantas outras pessoas, o tão desejado retorno para  casa…

De toda forma, ao longo dos cinco séculos que Gorée –  em meio as diferentes opiniões dos historiadores – foi um dos maiores entrepostos do comércio de pessoas africanas que seriam escravizadas, muitas e muitos foram os que chegaram vivos ao Brasil, deixando sua rica herança em nossa pele, carne, e em nossa alma. Nossos antepassados vivem em nós! Nossa resistência, ainda frágil, mas a cada dia mais forte, tem seu começo neles! Há forças que só encontram motivo para existir e nos fazer (re) existir quando  deixamos de tentar lutar sozinhos, e nos unimos!

Em meio a esse relato carregado de tanta dor e tristeza, houve dois momentos em que me senti inspirado, renovado. Antes de conhecer a tal “Maison des esclaves”, passei por uma escultura que homenageava o fim da escravidão. Tratava-se da representação de um homem e uma mulher negra. Ele com os braços para o alto, com as correntes em seus pulsos rompidas! Ela abraçada a ele, encostando seus seios no peitoral dele, e ambos sobre um tipo tradicional de instrumento percussivo! O segundo momento se deu quando ao
img_20161014_124723subir a parte onde ficavam os mercadores naquele cenário bizarro, fui até a sacada e pude contemplar um gavião – ave muito comum na região – voando bem perto da minha cabeça. Estes dois momentos me emocionaram… Cada um provocou em mim algum sentimento acerca da Liberdade, essa coisa ainda enxergada por meio de espelhos distorcidos, mas que mesmo sendo um caminho que só descobre a cada passo, não nos resta dúvida de sua concretude! O gavião voava acima daquela construção infernal, e me remeteu a ideia de que a liberdade não pode ser contida e, sim, ela rompe correntes, ultrapassa os grilhões de metal, atinge o mais profundo de nossa alma, transformando-nos…

Que nossos olhos enxerguem e sintam a dor dos que vieram antes de nós, mas que isto não nos paralise! Que a dor que reside em nós seja convertida em força! Que renovemos em nós um espírito de luta, de justiça e de Amor! Que nossa luta por igualdade, direitos, não nos
endureça! Que o “olho por olho” não gaviao
encontre espaço em nossas bandeiras! Que a vida que vi em cada mulher, homem e criança, habitantes de Gorée seja real também em nós, e que as próximas gerações nasçam mais fortes, em bravura e em Amor!