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A primeira vez que meus olhos contemplaram a Îlé de Gorée foi ainda em Dakar, quando conheci uma pequena praia chamada Plage du Ponton, próximo do centro da capital. De lá não pude sentir nada que anunciasse a mistura de sentimentos que minha primeira visita a Gorée causaria. Dias depois, junto com um amigo brasileiro,  residente há mais de dois em Dakar, fomos até lá. Como qualquer turista, paguei o valor para não residentes no Senegal, entrei num grande barco de transporte de pessoas, e em menos de meia hora estávamos atracando. Dentrgoreee os passageiros havia muitas pessoas as quais identifiquei como negras, muitas não senegalesas, tendo em vista que era uma quinta-feira, e os nativos vão a Gorée muito mais aos fins de semana, quando a ilha fica abarrotada de gente. Havia brancos, provavelmente estrangeiros, em geral franceses…. Os brasileiros ainda não costumam viajar tanto ao Senegal, de forma que é bem provável que nós dois fossemos os únicos naquela viagem, e eu o negro (dentro da perspectiva brasileira).

 

Antes de continuar com meu relato, devo alertar que meu intento aqui é, de antemão, um fracasso e fico satisfeito que assim o seja. Não conseguirei compartilhar plenamente do que senti em minha primeira visita a este lugar, não há condições, em especial do que senti ao conhecer a Maison des Esclaves – Casa dos escravos. Uma construção que fica a beira mar que não podia ter um nome mais inapropriado, tendo em vista que certamente não era um lar, muito menos um lar para tantas mulheres, homens, crianças pequenas e maiores! Era um depósito de gente! Apenas a parte superior da construção poderia, talvez, ser considerado uma casa, onde ficavam os europeus. Os diferentes africanos que dali partiam ficavam acumulados aos montes em quartos onde eram separados por gênero, idade, beleza, e serventia para os diferentes interesses mercadológicos de seus futuros “donos” ocidentais. Os mais rebeldes eram obrigados a ficar num reduto ainda menor, uma espécie de solitária, um lugar que conseguia ser ainda mais assustador do que todo o resto.

Não sei das suas crenças, mas acredito que os lugares findam por manter certas formas de energias residuais, o que, a meu ver, independe do que pensemos  a respeito de entidades espirituais, fantasmas ou coisas do tipo. De forma que uma construção onde as pessoas que por ali passaram tenham sofrido muito, também carregará por muito tempo, talvez para sempre o peso daquele sofrimento. Como em muitos lugares, a “Casa dos Escravos” foi transformada em ponto turístico, um dos principais da ilha. E como não poderia deixar de ser, é necessário pagar, não muito – o equivalente a menos de R$ 3,00. De modo geral, as pessoas fazem um percurso lá dentro no qual, primeiramente, ouvem algumas informações do guia, o que não achei necessário. Em parte, por nunca gostar de estar em multidão; por ser desconfiado dos relatos dos guias turísticos; por estar acompanhado de meu amigo, e por fim, porque, desde a minha entrada ali, sentia que era mais importante sentir do que ouvir sobre aquele lugar. Eu já sabia o principal: dali muitas africanas e africanos haviam sido despachados em pequenos botes que os jogavam nos terríveis Navios Negreiros. Uma viagem sem volta para a maioria deles, que para alguns terminaria ainda no oceano, já que não foram poucos que morreram doentes, vítimas tanto de doenças físicas, como de espirituais…

porta-sem-retornoHá um corredor ali, um corredor tenebroso, um corredor final, um corredor de morte existencial para muitos… Não vivi aquilo, felizmente! Não posso sentir o que sentiram aquelas pessoas, mas sei de uma coisa: duvido que, por mais empáticos que aqueles europeus possam ser, eles sejam capazes de sentir o que alguém que tem mínima consciência do que seus antepassados sofreram com o processo de escravidão intercontinental. Esta última afirmação tem dois propósitos: não negar que havia entre os povos africanos – não diferente de outros povos – o costume de escravizar seus inimigos. No entanto, ao contrário do que percebo em algumas falas e textos, isto não trás qualquer tipo de leveza para no que aconteceu após o encontro entre povos europeus e africanos. Não romantizar a história africana, buscando enxergar com base em seu contexto histórico, sociopolítico e cultural, não deve servir de desculpas para o genocídio – em geral nunca assim chamado – a que foram submetidos esses povos quando se encontraram com a dita civilização!

Entrei pelo referido corredor que desembocava na porta que ficou conhecida como a “La porte sans retour” – “A porta sem volta” e uma sensação indescritível tomou conta de mim! Chorei. As lágrimas surgiram aos montes, como agora, ao me reportar aquele momento. Encostei-me naquelas paredes geladas – o efeito da umidade e do vento que ali se encontram -( com o propósito de não cair devido à fraqueza física e energética que me abateu ao chegar na saída, de onde via o oceano. Respirei fundo, pensei na degradação a qual cada pessoa ali foi submetida; nos casais sendo abruptamente separados uns dos outros; nas mães e pais, naquela suposta casa, tendo seus filhos e filhas arrancados de seus braços. Pensei ainda mais naqueles que iam sendo mandados para servir forçosamente a outros povos, longe de sua terra, suas famílias, seu continente… Por fim, pensei em meus antepassados, talvez o bisavô do meu bisavô paterno…. Esses que chegariam lá sem um sobrenome, e que tempos depois ganhariam um, no nosso caso, Rodrigues. Um nome marcado pela história da escravidão, um nome dos “senhores”… Respirei fundo, tornei a chorar, mas consegui me manter firme sob as pernas.

Enquanto saía outros estrangeiros iam até lá, tiravam suas fotos e partiam. Dirigi-me a parte superior, um ambiente que contrastava com o anterior. Apesar de fazer parte da mesma construção, tratavam-se de mundos diferentes. Lá em cima a luz entrava amplamente pela construção, enquanto embaixo o que predominava era escuridão. A principal entrada de luz era aquela que conduzia ao desterro, era a única luz no fim daquele túnel. Nem toda luz alumia! Essa, por exemplo, tinha tons de morte. Pior, tons de maison-des-esclavesescravidão! A morte, por vezes, acredito, pode ser muito mais libertadora que certas maneiras de se viver neste mundo. Para alguns será o fim de tudo, um alívio; para  outros, um descanso; enquanto para tantas outras pessoas, o tão desejado retorno para  casa…

De toda forma, ao longo dos cinco séculos que Gorée –  em meio as diferentes opiniões dos historiadores – foi um dos maiores entrepostos do comércio de pessoas africanas que seriam escravizadas, muitas e muitos foram os que chegaram vivos ao Brasil, deixando sua rica herança em nossa pele, carne, e em nossa alma. Nossos antepassados vivem em nós! Nossa resistência, ainda frágil, mas a cada dia mais forte, tem seu começo neles! Há forças que só encontram motivo para existir e nos fazer (re) existir quando  deixamos de tentar lutar sozinhos, e nos unimos!

Em meio a esse relato carregado de tanta dor e tristeza, houve dois momentos em que me senti inspirado, renovado. Antes de conhecer a tal “Maison des esclaves”, passei por uma escultura que homenageava o fim da escravidão. Tratava-se da representação de um homem e uma mulher negra. Ele com os braços para o alto, com as correntes em seus pulsos rompidas! Ela abraçada a ele, encostando seus seios no peitoral dele, e ambos sobre um tipo tradicional de instrumento percussivo! O segundo momento se deu quando ao
img_20161014_124723subir a parte onde ficavam os mercadores naquele cenário bizarro, fui até a sacada e pude contemplar um gavião – ave muito comum na região – voando bem perto da minha cabeça. Estes dois momentos me emocionaram… Cada um provocou em mim algum sentimento acerca da Liberdade, essa coisa ainda enxergada por meio de espelhos distorcidos, mas que mesmo sendo um caminho que só descobre a cada passo, não nos resta dúvida de sua concretude! O gavião voava acima daquela construção infernal, e me remeteu a ideia de que a liberdade não pode ser contida e, sim, ela rompe correntes, ultrapassa os grilhões de metal, atinge o mais profundo de nossa alma, transformando-nos…

Que nossos olhos enxerguem e sintam a dor dos que vieram antes de nós, mas que isto não nos paralise! Que a dor que reside em nós seja convertida em força! Que renovemos em nós um espírito de luta, de justiça e de Amor! Que nossa luta por igualdade, direitos, não nos
endureça! Que o “olho por olho” não gaviao
encontre espaço em nossas bandeiras! Que a vida que vi em cada mulher, homem e criança, habitantes de Gorée seja real também em nós, e que as próximas gerações nasçam mais fortes, em bravura e em Amor!

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2 thoughts on “Sobre belezas e tragédias: um relato sobre a visita a Îlé de Gorée

  1. “Que nossa luta por igualdade, direitos, não nos endureça! Que o “olho por olho” não encontre espaço em nossas bandeiras!”.

    Isso me fez lembrar da guilhotina, tão usada durante a Revolução Francesa, e que ironicamente matou o seu criador, [Joseph-Ignace] Guillotin, e aqueles que mais a usaram durante o período do “Terror”, as lideranças jacobinas, dentre eles Robespierre. Várias revoluções não foram diferentes e mataram criadores e filhos. Fazer de um processo de transformação e emancipação uma vendeta, uma vingança, temperada pelo amargor do ódio, com gosto de bile, é algo perigoso e traiçoeiro, no mínimo. Se a violência é necessária? Diante da violência institucional do inimigo, e de mentes por trás de tocaiais, de adversários por trás de ardis, como não? Porém, que seja como reação e não como cegueira, que há de esfaquear pelas costas. Que seja cirúrgica, direcionada àqueles que de fato estão por trás das chagas, daqui e daí. Raiva usada como metralhadora giratória e desgovernada, uma hora se volta pra quem está atirando…

    Indico um filme do polonês Andrzej Wajda, “Danton – O Processo da Revolução”. Nele, além de discutir isso que tou dizendo (que aliás é completamente influenciado pelo filme, digo logo), um filme que enfoca inclusive o contexto da Revolução Francesa, discute também o contexto vivido pela realidade polonesa até aquela época (1982), que sempre sofreu o imperialismo de países europeus diversos – a Rússia stalinista inclusa. Por sinal, [li em algum lugar que] Yoko Ono uma vez chegou a dizer: “A mulher é o negro do mundo. E os poloneses, os negros da Europa”.

    Que essa viagem te engravide de ideias e de ações – especialmente aqui, no Brasil.
    Abração, meu velho!

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