Em um tempo obscuro, onde figuras como Temer, Trump e Le Pen ascendem ao poder, precisamos respirar fundo, unirmos forças em meio as nossas diferenças e lutar! O mundo não está do avesso, ele está a imagem e semelhança explícita do que vem sendo há muitos séculos! E nesse cenário continuamos, negras e negros ao redor do mundo, a sofrer um holocausto diário, silenciado por aqueles que desde muito tempo não tem interesse que saiamos de nossas senzalas parar fazermos do mundo nosso quilombo! Salve Dandara e Zumbi! Salve Clementina e Bezerra da Silva! Nós os vivos deste mundo saudamos todos os que antes de nós vieram, e em nós habitam!reproducao_destaque_dandara

Certa vez ouvi do meu então terapeuta a seguinte frase: “Ah, porque você sabe que a pele das pessoas negras tem um cheiro mais forte, né?”. Na hora não soube o que dizer, e, para ser sincero, não tinha compreendido como o ato racista que, de fato, foi! Por que? Era apenas uma variação velada, banhada de palavras aparentemente menos agressivas, da frase: “Vixi, tá fedendo a nego!”, também bastante difundida Brasil no. zumbiTão presente em nosso cotidiano quanto ela estão outras, não menos violentas, como: “Nego, quando não caga na entrada, caga na saída!”; “Todo preto é preguiçoso!” – Não à toa são os baianos que têm de lidar com o título de “gente preguiçosa” – alimentando a antiga ideia de que a população negra é mais tendenciosa a vagabundagem.

Bem, nenhuma brasileira, ou brasileiro, precisa atravessar o Atlântico para discordar dessas questões, mas estando do lado de cá, conhecendo um pouco dos povos e costumes da gente senegalesa, a crítica a tudo isso só se reforça. Nem me refiro aqui a história antiga das grandes civilizações africanas, e de como elas influenciaram todo o mundo dito moderno. Sobre isto só gostaria de ressaltar o quanto acho curioso que a dita arqueologia essa ciência/invenção ocidental, reconheça que a humanidade, como a conhecemos começou na África, e que, com isso, muitos dos nossos aprendizados tenham advindos daqui também. No entanto, o tal “novo mundo” parece ter  escolhido dar as costas para o “velho continente”, a não ser para lhe explorar, seja as riquezas das terras ou os corpos e almas de

diaspora
Diáspora Africana

sua gente!

Essa negação da importância, da capacidade criadora, tal como da força do povo negro, aparece também no Senegal na forma de posturas que parecem ver nessa gente um aglomerado de vagabundos, ou no máximo de gente destinada a servir aos brancos; ao Ocidente; aos “civilizados”, os “tubabs”. Já ouvi por aqui que os senegaleses não trabalham, mas passam o dia a tomar café touba – um tipo de café local com limão! Não sei por quais ruas as pessoas que afirmam isso andam, ou em quais dias estão a circular por ai, ou muito menos por quais bairros! Sei apenas que em um mês e oito dias  andando por algumas cidades circunvizinhas da região de Dakar, não poderia achar algo mais falacioso!

Mesmo nos domingos, vejo as ruas repletas de gente trabalhando! Homens, mulheres, 14677285_178802929244458_3075013867437293568_n1velhos e crianças, estão por todos os lados a ocupar as , sejam nos diversos tipos de transportes coletivos que há por essas bandas; vendendo todo tipo de coisas; etc. Sim, há muita gente desempregada! Sim, há muita gente pelas ruas a pedir dinheiro! Há crianças cheirando cola! Há roubos, corrupção endêmica por todos os lados! Ah, e por aqui há uma minoria branca  e estrangeira, em boa medida, que controla diversas coisas no país! Familiar, não?

Não se trata aqui de criar um discurso binário entre mocinhos e bandidos, onde o Ocidente seja visto como o único responsável pelas mazelas socioeconômicas, políticas, históricas e culturais dos países africanos. Certamente antes da entrada dos europeus, já havia desigualdades, guerras, e diferentes mercado-de-peixesformas de opressões. No entanto, se por um lado não se deseja romantizar a história dos africanos, muito menos pretendo cair em sua culpabilização, especialmente pela extrema desigualdade reinante entre os povos negros, seja em África, ou espalhados pelo mundo…

Arrancaram-nos de nossas terras; do meio do nosso povo, nossos afetos, nossos ancestrais! Disseram: Vocês não são humanos, são bestas, no máximo máquinas que usaremos até o esgotamento!

Jogados em Negreiros, amontoados como montes de bichos, separados por usos, gêneros e características físicas! Nos trataram como mão-de-obra, mercadoria! Jogados em fétidas senzalas, apenas com as roupas do trabalho, as mesmas com as quais dormíamos… Nos

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Negreiro

chamaram de sujos!Estupraram nossos corpos, almas e com isso tentaram acabar com nossa dignidade… Disseram-nos: “”Vocês não tem alma!”. Quando criamos nossos quilombos com a dignidade de um povo que nunca se quebrou totalmente, fomos acusados de rebeldia! Rebeldes, sim! Radicais também!

Em um tal 13 de maio, que nunca será dia das pretas e pretos, disseram-nos mentirosamente: “Vocês estão livres! Somos todos iguais! Esforcem-se e alcançarão o sucesso.” Nem livres, muito menos iguais! Não nos ofereceram empregos, preferiram outros brancos! “Narciso acha feio o que não é espelho”! Já não servíamos mais ao trabalho! Chamaram-nos de preguiçosos, vagabundos, indolentes! senzala

No Brasil somos tantas e tantos, negras e negras, das mais variadas cores de pele, mas para, mais uma vez tentar nos arrancar a própria existência, nossa identificação com nossos irmãos em África, e de toda a Diáspora. Gritaram em nossos ouvidos: PARDOS!

Sabem de uma coisa? Não conseguiram acabar conosco! Re-existimos, seja nas ruas do Senegal, de Cabo Verde, de Guiné-Bissau, Angola, Estados Unidos, França ou Brasil. O caminho ainda é longoluther-e-malcon, e ele passa por relembrarmos dos nossos antepassados, sua força, suas lutas! Sim, eles foram arrancados de suas terras, mas suas raízes penetram profundamente em nossos corpos e almas! Precisamos re-aprender!

Não há receitas prontas, mas numa coisa aposto: não será com as armas dos nossos opositores que conquistaremos nossos espaços! Resistiremos nas salas de aula e nas ruas! Resistiremos em todos os espaços em que a planta dos nossos pés pisar! Resistiremos onde quer que existamos!

Onde houver amor, haverá resistência, onde houver resistência ali estaremos!!!

resistencia

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One thought on “Alumiar a escuridão com nossa negritude diversa…

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