Dois lados do Atlântico, múltiplas negritudes e a triste (e vergonhosa) surpresa dos senegaleses

continenete-africanoHá ainda muita gente no Brasil que trata a África como um país. O que explica, por exemplo, que as pessoas, sabendo que estou no Senegal, me façam perguntas que remetam a alguma imagem um tanto homogênea de uma “mãe África”, ou mesmo de conclusões precipitadas, sobre nossas concepções das dinâmicas culturais dos povos que vivem no “velho continente”. Bem, devo confessar que também não escapei a isso, ainda que já há algum tempo tomasse cuidados em não generalizar tanto. Não adianta também uma crítica mordaz quanto a isso, tendo em vista que revela bastante sobre nossa educação formal e informal, que pouco nos explica sobre a história africana e suas influências no Brasil. Em geral tudo que sabemos remete a escravidão ou parte dos filmes hollywoodianos, que quando não resumem todo um continente às savanas, leões e outros animais não-humanos, mostram apenas exploração e miséria…

De todo modo vemos o problema das histórias únicas, como muito bem apontou a autora Chimamanda Adichie. Tudo se resume a uma versão única, imposta em geral por quem tem pouco interesse nas outras, as quais podem revelar fatores positivos sobre quem se conta a história, e, por vezes, outros nem tão positivos assim sobre quem conta. Isso, entre nós, nascidos no Brasil, só reforça o porquê de tanta luta para que a história de África seja contada de forma mais abrangente. Lembro-me de como fiquei surpreso ao descobrir que o Egito, aquela grande civilização que estudávamos tanto no colégio, era africana!

Sim, reduzir a história, seja de um povo ou uma pessoa, a uma única faceta é ser conivente com uma gama de preconceitos! Gosto de usar como exemplo a seguinte face-negra-do-brasilanalogia: você ouve falar muito sobre alguém, mas tão bem que fica com vontade conhecer aquela pessoa. Quando finalmente você realiza o seu desejo tem o azar de encontrar aquela pessoa de mau humor, sem paciência e, como se pode imaginar, sem querer conversar muito. Você volta decepcionado e conta pra geral o quanto aquela pessoa é um porre, mal educada e antipática. Talvez não seja o melhor dos exemplos, mas a ideia é mais ou menos essa…

Bem, ter uma visão homogênea de um lugar não é privilégio apenas de nós brasileiros, provavelmente todos os povos partilham disso em relação a outros. Estando no Senegal você finda por descobrir que, salvo algumas pessoas, o pouco que se sabe sobre o Brasil e os brasileiros se resumo ao samba, o futebol (o que hoje inclui o 7X1) e, lamentavelmente esperado, um discurso objetificador das mulheres, o que é alimentado por uma masculinidade, que seja no Brasil, ou aqui,  pouco, ou nada se problematiza!! Há ainda aqueles que acreditam que o Brasil é o país das oportunidades, talvez motivados pelas centenas de senegaleses que migraram nos últimos anos, e que, ao contrário do que podiam esperar, não tem uma vida mais tranquila!

Em meio a esse olhar homogeneizado que os senegaleses – e alguns outros africanos com os quais tenho feito amizade – há uma questão que a maioria parece saber: o Brasil é um país enorme e a maior parte da sua população é de negros e mestiços, isto é, não brancos, e, portanto, carregam alguma herança de África. Bem até ai  não há nada de errado. O problema está quando exatamente por isso se imagina que entre os brasileiros não haja muito racismo. Admito que bate aquela tristeza quando tenho que explicar, e dar exemplos, de como o racismo é forte entre nós, a ponto de afetar toda coletiva e subjetivamente toda uma população de negras e negros.

Dia desses fui fazer algumas compras num supermercado e eu e a moça que pesava os frios começamos a conversar. Ela me perguntou de onde eu era, quando eu disse, ela fez alguns comentários sobre o Brasil, e logo me lançou a pergunta: “Lá não tem muito racismo, né?”. Mais uma vez lá fui eu explicar para ela como é pesado o racismo no Brasil, e que mesmo eu, sendo mestiço/métisse – porque não estado-e-os-negrossou negro/noir no Senegal – sofria com o racismo. Ela cada vez mais surpresa, perguntou: “Mas vocês, negros e mestiços, não são a maioria por lá?” Respondi que sim, e lhe expliquei o quanto quase quatro séculos de escravidão se fazem presentes ainda hoje, seja na exclusão social e econômica, ou pelo estigma de serem supostamente inferiores. Dei a ela alguns exemplos, como a relação da polícia com negros e negras; ou a falta de oportunidades, que se evidenciavam no fato de que em toda a minha vida eu tenha tido apenas uma professora negra, e isso já quando cursava a graduação.

Algo semelhante aconteceu quando recentemente precisei ser atendido por uma equipe médica, e, um tanto emocionado, falei a médica que era a primeira vez na minha vida que era atendido por uma profissional da medicina que fosse negra. negrosnasaudeMais uma vez a pergunta: “Mas vocês (negros e mestiços) não são a maioria por lá? ” Percebi o quanto senegaleses sabem muito pouco sobre o Brasil, e que por isso tiraram conclusões que lhe soavam lógicas, e que me soam assim também. Essa mesma lógica me fez ouvir de alguns amigos se eu esperava algo diferente que ser atendido por médicos, advogados, ou mesmo ver que todos os quatro presidentes do Senegal também o eram.  A resposta é não! Estando aqui não há surpresas quanto a isso. Sinto-me emocionado e revoltado em certos momentos porque eu precisei atravessar o atlântico para ser atendido por uma médica negra; para ver excelentes escolas cheias de pretinhas e pretinhos, em geral tendo aulas com professoras e professores bem pretos também!

Nos momentos em que houve tempo, e interesse para se compreender melhor o porquê de tanto racismo no Brasil, me esforcei para explicar que o fator econômico era importante, tendo em vista o que foi feito para com a população negra do pele-negra-mascara-brancaBrasil após a sua suposta libertação da escravidão, mas também que isso tinha outros efeitos, que remetiam a um tipo de isolamento simbólico, isto é, algo que havia se entranhado na sociedade brasileira, e que entre nós, negras e negros, se convertido inclusive numa falta de confiança em nós próprios, fruto de um sentimento de inferioridade, tendo em vista que todos os cargos, profissões, referenciais de beleza, enfim, tudo aquilo que remete a boas coisas, em geral, eram ocupadas por pessoas brancas, isto é, diferentes de nós.

Certa vez falando sobre isso pedi que determinado amigo senegalês, defensor da meritocracia, como seria difícil acreditar que ele poderia fazer seu segundo mestrado, e sonhar com o doutorado, e ainda mais em ser professor de uma milton-santosuniversidade pública – como era o caso dele – se nunca tivesse tido um professor sequer que se parecesse com ele. Ele concordou. Disse que apesar de acreditar que o esforço é indispensável, que não ter uma inspiração, torna tudo mais difícil. Por isso falamos, repetimos e insistimos: REPRESENTATIVIDADE IMPORTA, SIM!!!!

Alguns podem ler esse texto e dizer: “Ah, mas eu conheço médicos negros, você está exagerando  e sendo muito radical!”. Primeiro, na minha concepção de radicalismo, não tenho problemas em ser, já que “ser radical” é buscar se aprofundar, “ir na raiz do problema”, como dizemos  em terras brasilis. Segundo, que lembre, conheço um médico negro brasileiro, o qual fez toda sua formação em Cuba, tendo em vista que, sendo pobre, não poderia fazer o curso no Brasil, mesmo em uma universidade pública! Hoje ele é um excelente médico, mas preciso me esforçar para lembrar de outros.

Sobre professoras e professores não preciso de esforços, tive uma única, Irene Paiva, uma mulher forte que, por sinal me deu muita força para fazer o mestrado. Não me orgulha que posso ser apontado por vários alunos e alunas minhas como seu único professor negro. Muito pelo contrário, essa falta de lógica que tanto surpreende senegaleses me envergonha, me entristece, mas também me motiva não a um discurso meritocrático, que faça de mim exemplo para qualquer coisa, mas sim que queira voltar o mais rápido possível para sala de aula – habitat quase que natural – e contribua para o tipo de questionamento que veja a falta de lógica que é viver numa sociedade de maioria negra e mestiça e ser apontado como uma exceção, ou pior, como “um preto de sorte”!

Sorte de quê? De ter tido uma trajetória distante de outros negros, porque passei a maior parte da minha vida em espaços de classe média BRANCA – escolas, igrejas, universidades, etc – e com isso demorei bastante a perceber que as dores que me afetavam não eram apenas minhas? A sorte de que com esse “privilégio” não tive vontade de trabalhar para o tráfico, e que com isso posso estar vivo  perto de completar  meus 34 anos, ao invés de ter morrido aos 14? Ser exceção não é sorte, é mais uma fatalidade, que não me matou, mas me faz olhar ao redor e, por vezes, ter medo de fracassar a cada momento, ou, de me pressionar para que isso não aconteça, e, com isso, me esforçar três vezes mais que outros, porque luto contra algo que foi enterrado na minha alma, como ervas daninhas com raízes profundas – que vão sendo arrancadas a cada dia. Luta que também se dá  há todo tempo do “lado de fora”, seja ao lidar com olhares, questionamentos de pessoas, grupos, e do próprio Estado – esse que quando não nos mata com “tiro, porrada e bomba”, o faz  vagarosamente, apenas oferecendo formalmente direitos e oportunidades iguais!

Em tempo: a vergonha – mencionada no título desse texto – não é minha, e não deve ser qualquer negra e negro brasileiro, tendo em vista que ela não é nossa culpa! A vergonha devem ter aqueles que carregam em seus corpos, oportunidades, e na cor branca de sua pele (por que não?) os privilégios de uma “nação” que ainda estigmatiza, invisibiliza e escraviza negras e negros, fazendo de nossa carne ainda “a mais barata do mercado!  Tudo isso soa como uma espécie de deboche, uma tentativa de deslegitimar e nos enfraquecer. Talvez em outro momento eu possa escrever sobre os sentimentos de inferioridade que assolam os senegaleses em relação aos brancos; como ele se torna explicito, assim como sobre como isso tem também a ver com a colonização. Certamente que quanto a isso há também semelhanças e diferenças com o Brasil.

Por ora tem algo que quero dizer: Sim, ainda somos muitos poucos, negras e negros, mestiças e mestiços, a ocupar determinados espaços, tidos como de mais valor no Brasil, mas estamos entrando, incomodando, afrontando, e com isso, como gostamos de dizer no Afronte, fazendo de qualquer lugar que estejamos nosso quilombo, colorindo diversamente o mundo com nossa negritude forjada debaixo de muita luta e sofrimento, mas também debaixo de muito axé, tambores e danças! Ah, e quanto mais isso acontecer, e por mais distante que possamos estar, serão também as estruturas de um sistema capitalista que justifica a existência de classes – que ainda são quase castas – que estarão sendo balançadas!

 

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